08 de outubro de 2010

Mario Mancuso

Pensando um pouco em arte

Olá, pessoal

Hoje trarei para vocês um assunto que é mais uma reflexão do que outra coisa: o quanto de arte tem na ilustração?

Calma, não respondam rápido, pois não é tão simples. Se vocês olharem ao redor (é brincadeirinha, certo? Não estou ficando louco – rs) verão que muitos levantaram a plaquinha SIM, enquanto outros levantaram a placa NÃO… E, claro, há o grupo dos não sabem o que opinar.

Bem, esta reflexão é para os três grupos – rs

É muito comum haver uma certa polêmica sobre a ilustração ser arte ou não. Os defensores do “não” argumentam que por ela ser feita sob encomenda, seguindo um briefing e depois “vendida”, não é arte, afinal arte é uma discussão autoral. Se fôssemos adotar esta resposta, a arquitetura não seria arte também…

Outros argumentam que “sim”, pois ela se vale de elementos artísticos e está sujeita aos mesmos quesitos técnicos e subjetivos que uma pintura. Assim qualquer coisa, como uma vinheta de livro didático, seria arte.

Na minha opinião, o ilustrador é um artista que presta serviço, ou um prestador de serviços de arte. Não vou entrar no conceito do que é arte (no Google há mais de 45 milhões de resultados para a pergunta “o que é arte”), mas o que ouvi falar ao longo dos anos é que arte está “ligada a uma reflexão ou busca por respostas que reflitam as grandes dúvidas da existência através da expressão da percepção dos sentidos”.

Esta definição é totalmente minha, ao ver o que muitos consideram arte em museus, exposições, etc.: pinturas, textos, esculturas, etc.

Muitas pessoas que se consideram “artistas” se travestem de uma aura mítica subjetiva intelectual seminal confusa lúcida e coisa e a tal. Muito abstrato? Também achei… Estas mesmas pessoas acreditam que a arte não pode ser vinculada a coisas mundanas e mesquinhas como dinheiro e que o saber artístico vem da alma e é reservado para poucos. Daí que ilustração não é arte…

Bem, eu acredito em coisa diferente. Acredito na reflexão e na discussão sobre as questões do cotidiano, algo tirado da filosofia e já havia em obras artísticas da antiguidade. Também acredito numa função prática que alia forma e função, conceito também pinçado de séculos atrás; e, por fim, acredito no poder comunicacional da arte, ou seja, ela transmite, ela fala, ela age como meio e mensagem na relação dialética entre artista e público. Isso quer dizer, toda obra de arte quer dizer alguma coisa sobre algo para alguém!! Comunicação Visual!!

Antes de citar exemplos e entrar de cara na ilustração, vale a pena lembrar que grandes mestres do passado, além de artistas, eram cientistas, filosofos e outras mil coisas, o que mostra uma visão holística (total) do mundo, sem divisões que hoje habitam os discursos de certos artistas.

Bem, minha área de atuação é a ilustração e quadrinhos, mas também sou vidrado em cinema, que são áreas que sofrem muito com a disputa entre o ser e não ser arte.

A formação artística é algo acessível a todas as pessoas (“pelamordedeus”, não acreditem naquela baboseira de “dom”), sendo que algumas trabalham, exercitam este lado, enquanto que outras simplesmente fazem de conta que ele não existe. É a eterna luta entre a percepção e a razão, ou seja, sentir e pensar. Nosso cérebro tem a capacidade de trabalhar as duas partes em harmonia, mas por questões culturais valorizamos mais a razão.

A manifestação artística é um conjunto de fatores que evolve perfil emocional, perfil intelectual, treino físico e mental , entre outras coisas (mas nada de dom – rs) e , acreditem, ela não entra em conflito em ser popular, ganhar dinheiro ou atender encomendas.

Um exemplo é o pintor Alfonse Mucha, pintor de origem Checa, grande expoente do movimento Art Nouveau, considerado um dos primeiros ilustradores publicitários, assim como seu contemporâneo, o francês Toulouse Lautrec. Ambos eram pintores ilustradores ou ilustradores pintores.

Mais para frente temos diversos exemplos como Frank Frazzeta, Boris Valejo, na arte fantástica, Benício, o mago brasileiro, Norman Rockwell, um dos maiores ilustradores dos EUA, dentre outros.

A atividade de ilustrador é uma prestação de serviço sim, mas também é uma atividade artística que envolve uma liberdade autoral maior ou menor, dependendo do projeto, mas se vale da preparação, da capacidade do profissional de captar um conceito e transforma-lo em comunicação através de uma linguagem visual, com sentidos explícitos e implícitos, recebendo por isso.

O pagamento e o fator encomenda não interferem no mérito da criatividade. Da Vinci, Michelangelo, Veermer, etc, todos pintaram sob encomenda em troca de um pagamento em dinheiro (afinal artista também precisa comer, né?).A arte não é privilégio de poucos “sábios” ou “abençoados’. Ela é algo do ser humano para o ser humano e manifesta-se de diferentes formas com diferentes fins.

Abraços e boa semana!

1 "parpite"

1. Silvia Zampar publicado em 08 de outubro de 2010 às 9:11

Mário, enquanto eu lia seu post pensava: bom, mas se arte não puder ser comercializada, então não temos mais arte, afinal de contas, quase todos os artistas da antiguidade pintavam por encomenda (pintavam retratos, tetos de capela, cenas épicas para decorar os palácios) e hoje em dia não é diferente. Grandes pintores que eu conheço (pessoalmente ou pelos noticiários), todos comercializam suas obras (senão como iriam viver, pagar suas contas, viajar pelo mundo divulgando sua obra e seus países?).
Ilustração é arte sim!
Algumas podem ser arte mais primária, sem técnica mais profundas (como técnicas de traçado, de anatomia ou de pinceladas/acabamento), outras são muito mais elaboradas, percebe-se no ilustrador e sua obra um aprofundamento maior nos estudos de técnicas… O mesmo ocorre com quadros, com esculturas, todas chamadas de arte.
Não se menosprezem ilustradores. E não se achem mais do que são "artistas plásticos".

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