01 de março de 2010
Denise Faria

Concorrência especulativa: é possível evitar?

Como Atendimento, muitas vezes me encontrei numa situação delicada: o cliente solicita uma visita, mas deixa claro que está consultando outras agências e quer ver o layout antes de se decidir sobre qual contratar.

Bem, esse tipo de concorrência traz muitos questionamentos para nós que vivemos do que criamos e deve ser avaliada objetivamente:

  • É um cliente novo que nos interessa?
  • É um cliente que já conhecemos, mas que está em dúvida sobre nossa competência para o trabalho?
  • É possível apresentar uma peça “piloto” antes de montar toda a campanha?
  • É mera especulação e o cliente vai fazer um “leilão” do trabalho (quem oferecer mais por menos)?

Bem, há um certo consenso no mercado em relação às concorrências especulativas:

  • O artigo 12º do Código de Ética Profissional do Designer Gráfico diz: “ O Designer Gráfico não deve, sozinho ou em concorrência, participar de projetos especulativos pelos quais só receberá pagamentos se estes vierem a ser aprovados.”
  • É vital construir uma relação profissional e de confiança com o cliente para que ele tenha certeza de que sempre damos o melhor para atingir o resultado esperado.
  • Nesse tipo de solicitação a agência nem sempre consegue junto ao cliente o briefing completo e a troca de informações para fundamentar o projeto pode ficar comprometida, resultando num trabalho de menor qualidade e consistência.
  • O tempo investido na execução de um trabalho é um tempo perdido, cujo valor o profissional ou agência só recuperam se o serviço for pago.
  • O que, a princípio, poderia ser uma economia (do ponto do vista do cliente) pode resultar em trabalhos ruins vindos de todos os participantes envolvidos na concorrência, exatamente por estarem investindo num trabalho que não sabem se será ou não remunerado, o que, ao final, acaba sendo perda de dinheiro (para o próprio cliente).

Também é preciso ter cuidado com empresas que pedem um layout e, depois de dispensarem a agência, acabam usando uma parte da sua criação meio “disfarçada”, mas ainda é o seu conceito que está lá. Conversando com a Silvia Zampar sobre esse assunto, ela deu uma dica simples, mas que constuma coibir essa prática: uma carta que acompanha o layout dizendo algo como “Conforme determina a lei, não é autorizado o uso desta peça, nem das idéias aqui contidas, sem que o trabalho de criação seja previamente remunerado de acordo com o orçamento”.

Sempre que preciso lidar com uma concorrência que considero especulação, procuro esclarecer muito bem a postura da empresa que represento: a regra geral é que não fazemos “layout de risco”. Procuro apresentar um portfólio adequado, montado de acordo com o perfil do cliente; ofereço um orçamento detalhado e, às vezes, até alguma ideia escrita ou referências que encontro em livros e na internet, mas preferencialmente nunca entregamos o layout pronto

Enfim, vale aqui o bom senso (como sempre) e uma avaliação dos riscos.

Se quiser ler e refletir mais sobre o tema, aqui vai uma sugestão: O valor do Design – Guia ADG Brasil de prática profissional do designer gráfico (você encontra algumas páginas no Google Books)

15 "parpite"

1. Diego_Phellipe publicado em 01 de março de 2010 às 10:58

Ótimo assunto Denise, uma vez uma empresa de um amigo do meu tio pediu pra eu fazer um logo , algo simples, enviar uma prévia pra eles aprovarem, a inexperiência fez com que eu mandasse. Resumo da ópera: não fecharam comigo, e em alguns pontos o logo deles se parece bastante com o que eu fiz.

2. Riccardo Benetti publicado em 01 de março de 2010 às 11:34

Realmente muito esclarecedor, eu não sabia que podia-se mandar um texto informando que qualquer parte do que foi feito não pode ser utilizado, se agora vou aplicar toda vez que eu precisar, ultimamente eu tenho mandado uma média de 15 orçamentos por mês dos quais ao menos uns 10 pedem um layout e eu mando um conceito (wireframe) de como poderá ser feito um layout.

3. laylson publicado em 01 de março de 2010 às 11:42

Parabéns pelo artigo Denise, realmente essa prática está ficando cada vez mais comum e agora também em alguns casos, depois de ver o orçamento o cliente ainda olha pra você e diz: Tem uma outra pessoa/empresa que me faz isso por tanto… Pode?!

4. tudibao publicado em 01 de março de 2010 às 12:45

É verdade, Laylson, essa "palhaçada" tem ficado meio comum…
Veja essas postagens que já fiz no blog, que tratam do assunto (principalmente do aspecto de pensarem que nós não temos conta pra pagar, não comemos…) http://tudibao.com.br/blog/2009/11/desabafo-do-designe… e http://tudibao.com.br/blog/2009/11/mentiras-que-contam…
Mas, se aceita um conselho, não se sinta muito pressionado por essas afirmações que os clientes fazem, que têm preço menor. Às vezes não é verdade e, quando é e o preço é incompatível com o trabalho, acredite no seu potencial, diga isso ao cliente (não critique o trabalho dos outros, elogie o seu) e agradeça, indo embora. Geralmente o cliente "quebra a cara" depois volta a te chamar, se você deixou o caminho aberto.

5. tudibao publicado em 01 de março de 2010 às 12:51

Então, Benetti, o texto não tem "força legal", mas funciona psicologicamente.
Quem for mau caráter, conhece até as leis e sabe que você só terá algum direito se recorrer à justiça, provando, através das datas da criação em sua HD, a anterioridade das ideias (isso lhe custará tempo e dinheiro).
Mas a pressão psicológica às vezes já é suficiente para coibir levianidades de clientes menos experientes em picaretagem.

6. tudibao publicado em 01 de março de 2010 às 12:54

Diego, se isso lhe servir de algum consolo, isso provavelmente já aconteceu com quase todo mundo que trabalha com design ou propaganda.
Mas às vezes vale voltar no cliente e exigir um valor pelo "conceito criativo" envolvido, "ameaçando" colocar na justiça e levando as legislações sobre direito autoral que dizem que no caso da criação ele pertence a quem criou, etc, etc…
Na verdade só isso não resolveria, vc teria que colocar na justiça, mas só a "pressão" às vezes leva o cliente "pilantra" a fazer um acordo pagando o valor do conceito, no qual vc se diz levado (comigo já resolveu).

7. mario mancuso publicado em 01 de março de 2010 às 12:55

Swensacional post, Denise ! Este mal acomete a várias áreas, inclusive nós, ilustradores. Penso que deveria haver uma lei ou resolução que proibisse tal pratica como atitude ilicita. Imagina vc fazer um tratamento dentário, visitar 5 dentistas e pedir pra ele fazer uma pequena obturação para depois se decidir com qual termina o tratamento (e paga ). Absurdo! Pq conosco não é igual?

8. tudibao publicado em 01 de março de 2010 às 13:08

hahaha, boa Mancuso
Mas o pior é que isso até "poderia" acontecer com o dentista mesmo.
Tenho uma sobrinha que é dentista e ela mesma fala que se não conhece a pessoa, só faz o serviço com os cheques na mão.
Então talvez o problema não é haver uma "lei", mas sim uma resolução dos profissionais de não entregar nada sem contrato e pagamento.
Os dentistas já aprenderam – hahahaha

9. joaopitanga publicado em 01 de março de 2010 às 16:18

É difícil engolir fatos como esse no mercado, mas o pior é que existe. E é aí que entra o sobrinho do vizinho que mexe no Corel, e cobraria apenas tanto.

Belo post para abrirmos os olhos, Denise. Parabéns.

10. tudibao publicado em 01 de março de 2010 às 16:47

Mas, João, o bom é sabermos que o software não trabalha sozinho, ou seja, se o cara não tem competência, isso se refletirá no serviço que ele executará e, consequentemente, o cliente depois volta a te procurar. Eu acredito na competência vencendo o preço baixo. Sempre trabalhei assim, mesmo qdo perdi "jobs".

11. joaopitanga publicado em 01 de março de 2010 às 22:10

Pois é, esses sobrinhos nunca têm competência. Mas claro, o profissionalismo sempre vai falar mais alto.

12. Tábaty publicado em 02 de março de 2010 às 12:14

os designers se desvalorizam quando fazem layout de risco, quando compramos algo, temos que pagar para depois levar o produto ou serviço, porque com design tem que ser diferente? o que temos de mais precioso é a ideia, só que para ver a ideia, o cliente tem que pagar, depende de nossa posição como profissionais, reverter essas situações, abs

13. tudibao publicado em 02 de março de 2010 às 12:30

Tábaty, sou obrigada a concordar plenamente com você, somos nós mesmos que deixamos a coisa acontecer e quem podemos mudar isso.
Infelizmente sempre existirão os "desesperados", que acham que essa é a única alternativa pra colocarem seus trabalhos no mercado. Mas quem tem confiança no seu trabalho, tem que ter profissionalismo pra dizer: "Não, obrigado"

14. Denise Faria publicado em 04 de março de 2010 às 2:18

Todos que comentaram o post foram na mesma direção: nossa competência precisa ser valorizada, antes de mais nada, por nós mesmos! A experiência vai nos dando a certeza de que podemos dizer não a esse tipo de prática e a clientes que compram design sem dar a ele o justo valor. Essa postura só nos fortalece, como profissionais e como categoria! Obrigada pelos comentários e pela "troca de bola". Silvia, vc consegue juntar aqui no Tudibão gente que soma! Que delícia!

15. tudibao publicado em 04 de março de 2010 às 10:54

Pois é, tenho que concordar que tenho conseguido gente muito boa para contribuir aqui, incluindo "colunistas" e "leitores" – rs

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